Artigo de destaque desta semana...
Artigo:
LICITAÇÃO DE LIVROS – UM PROCESSO ALEATÓRIO
Data:
21/07/2011
Autor:
Volnyr Santos
Texto do Artigo
LICITAÇÃO DE LIVROS – UM PROCESSO ALEATÓRIO Volnyr Santos 1 É um fato de natureza pedagógica altamente elogiável a compra de livros para as bibliotecas das escolas municipais do Rio Grande do Sul, não só por representar uma preocupação com o precário acervo de que costumam dispor tais bibliotecas, mas, principalmente, pela relevância que a necessidade de ler assume presentemente, considerando que uma espécie de utilitarismo vulgar tem levado as pessoas carentes de leitura a crer que só o que tem utilidade imediata tem significado em relação a dinheiro, poder social e prazer. Esses dados negativos que permeiam a compra de livros, reforçam, por outro ângulo, um acentuado obscurantismo no processo de licitação. O fato não é novo. Diz o psicanalista Jurandir Costa Freire, a propósito dessa questão, que as pessoas, de modo geral, estão se tornando fúteis, vivendo de modo supérfluo, superficial e inconsistente. Acrescenta que “mudamos de crenças morais com a facilidade de quem não se leva a sério, não respeita a história de suas próprias convicções. O que estiver na banca de revista, em primeira página e de forma repetitiva, é bom, é desejável, é invejável. Em vez do comentário, da reflexão, decidimos o rumo da nossa vida moral na base da piada debochada, do humor de sarjeta, do elogio à ‘leveza tropical’, do faz de conta que há mais sabedoria na ignorância do que no conhecimento...” (In.: COUTO, José Geraldo. Quatro autores em busca do Brasil. Rio: Rocco, 2000, p. 48.) Ora, sabe-se que a leitura e, por extensão, o próprio conhecimento, pressupõe uma dimensão sociocultural em razão da importância que, ao longo do tempo, essa leitura tem tido (até quando?) nas comunidades que a valorizavam (e valorizam) como representação de uma relevante consciência social. Ao mesmo tempo, só podemos acompanhar a nossa própria dimensão histórica através dos conflitos humanos que a própria leitura surpreende no percurso que demarca o nosso futuro. Vista dessa perspectiva, a leitura reflete a cultura, já que ela só se dá na apreensão de uma realidade que a ultrapassa. Assim, o ato de ler corresponde a um diálogo complexo do qual fazem parte elementos escritos, literários ou não, incluídos, enquanto textos, o leitor, o autor, a realidade histórica e social e, naturalmente, o conhecimento. Esse conhecimento, que vem da leitura e dos vários fatores que estão nela implicados, para cujo acesso a escola deveria cooperar de forma atuante, não pode ser alcançado adequadamente em razão de uma outra realidade, já que a instrução generalizada das camadas urbanas provoca duas formas conflitantes quanto ao objetivo da leitura. Inicialmente, aquela que tem como interesse o simples lazer (o best seller, o livro de auto-ajuda, o texto de impacto), leituras que estimulam a fuga da realidade e a ilusão; num outro prisma, a literatura que tem como objeto o próprio saber; nesse caso, o leitor se apropria de certos conhecimentos que se fazem úteis à vida prática e, ao mesmo tempo, possibilitam alcançar espaços na vida social. 2 Já se disse que a escola é a ante-sala da vida burguesa. A educação, desde o seu começo, no século XVIII, vem servindo para permitir ao jovem o seu ingresso na vida social, naturalmente burguesa. Os elementos que conformam a visão de mundo escolar é naturalmente burguês, o que significa dizer que a escola abriga historicamente várias ideologias. Ler, portanto, significa o contato com as ideologias que são reconhecidas pelo uso intencional da linguagem, expressas no plano das idéias ditas ou subentendidas, nos modos de relação de personagens ou figuras históricas, na concepção e/ou fabricação mais ou menos sofisticada de um produto, na representação quase sempre refinada das hierarquizações, alcançando os ambientes ou os cenários, os meios de geração de simpatia ou antipatia, de prazer ou desprazer do leitor. Desse modo, alguém lê realmente quando é capaz de perceber intencionalidades, motivadas por combinações, propósitos ou ideologias. E isso dificilmente a escola ensina. Ler é, rigorosamente, adonar-se de um texto na sua composição escrita e na sua perspectiva crítica. 3 Um pressuposto embasa o que se vai ler adiante, em face dos processos licitatórios que ocorrem, com relativa freqüência, na aquisição de livros para as bibliotecas de escolas municipais. Imagina-se que, em se tratando de compra de livros – um permanente espaço de carência no Brasil –, a escolha de títulos deva apresentar critérios tais, que os livros selecionados devem conter uma estreita relação não só com a qualidade do texto, mas, principalmente, com a sua destinação a um leitor em formação, aproximando-o do conhecimento letrado. Frustrada imaginação. O que se pode ver por alguns dos títulos adquiridos, o problema da leitura nas escolas não possibilita, minimamente, a premissa de que os textos lidos possam trazer aos seus hipotéticos leitores uma perspectiva na qual a linguagem, a partir da representação que faz dos processos histórico-político-sociais, ofereçam uma visão típica da existência humana. De modo rigoroso, o que esses hipotéticos leitores poderão auferir da leitura da imensa maioria dos livros licitados é a representação de um mundo que (a) não estimula estados cognitivos; (b) não desenvolve a capacidade informativa; (c) não aprimora o juízo crítico e o gosto estético. Se esse estado de coisas é correto – a relação de alguns dos livros licitados será analisada nos seus objetivos – pode-se dizer, com absoluta segurança, que o leitor, no caso presente, não amplia a captação do discurso lógico e o prazer da linguagem afetiva, bem como não se forma nele uma personalidade agente e, ao mesmo tempo, sensível, o que, em outras palavras, significa dizer que esse hipotético leitor não intensifica sua sociabilidade, seja no plano interpessoal, seja na perspectiva intersubjetiva. (LUCAS, Fábio. Crepúsculo dos símbolos. Reflexões sobre o livro no Brasil, Campinas: Pontes, 1989.) Ao privilegiar a compra de livros, como os best-sellers, por exemplo, sabe-se que tais textos trazem na sua essência a idéia de objeto descartável, em razão de seu conteúdo absolutamente supérfluo. O best-seller “cria a excitação da mente e oferece a solução pacificadora, fazendo o leitor regredir ao repouso cerebral após o entretenimento fantasioso”. (Idem, ibidem, p. 66.). É, por isso, extremamente estranho que, numa licitação, sejam adquiridos livros de autores como J. J. Benitez com a interminável série Operação cavalo de Tróia e Stephen King e seus textos que visam apenas a suscitar o terror. Com os livros de Danielle Steel o que se vê (e lê) é o permanente interesse com a gratuidade literária. Com Sidney Sheldon, talvez o mais aquinhoado autor de best-sellers, e John Grisham e seus romances tempestuosos, mas descartáveis, avulta o nome de Dan Brown, o novo eleito midiático cujos livros se mostram, aparentemente, marcados por uma visão crítica da realidade, cuja leitura, no entanto, se frustra a cada novo título. O que espanta, em relação a eventuais e obscuros critérios de avaliação, é o fato de que, além dos malfadados best-sellers, abundam as publicações reconhecidas como livros de “auto-ajuda”, isto é, aquelas leituras que, nas palavras de Fábio Lucas, excitam o grande público. Não só os livros de inspiração religiosa ou moral que reelaboram o tema da esperança, mas também aqueles que lidam com uma pseudociência, gerando a presunção do saber para o controle dos negócios, da saúde, da beleza, da longevidade e de todos os atributos que possibilitam o sucesso nas relações, nos negócios, na sobrevivência, com a ilusão da perenidade. (LUCAS, Fábio. Op. cit. ). É de se perguntar se assuntos desse quilate podem interessar os leitores da escola de ensino fundamental, perdidos quase sempre nos seus naturais devaneios infantis. A “auto-ajuda” que pode ser haurida em livros que, pretensamente, induzem o leitor (haja maturidade!) a valer-se dos próprios recursos mentais e morais para superar questões de ordem prática, ou de natureza psicológica, vem de uma infinidade de autores que se sucedem nas listas dos “livros mais vendidos”. No caso da licitação que aqui é referida, são, de longe, os “livros mais comprados”. Se a leitura dos best-sellers se exaure com a consumição, já que lida com mitos inferiores, impregnados de idealismo e gratuidade, os de “auto-ajuda” caminham na direção da previsibilidade ou da factividade: sua leitura é de uma natureza mais ornamental do que funcional, quer se trate de Perdas e ganhos, de Lya Luft, quer se trate da imensa série de livros publicados por Nora Roberts ou do também prolífico Içami Tiba, ou mesmo, ainda, de Elisa Masselli. O que estarrece, no entanto, é o caráter pragmático e nitidamente esquizofrênico que determina a aquisição dos livros publicados pela Editora Vida e Consciência, que concentra os autores Marcelo Cezar, Meg Cabot, Mônica Castro, Ricky Medeiros e a tempestuosa Zíbia Gaspareto, esta última, com a aquisição, imagina-se, de toda a sua obra, com títulos como: Fique com a luz, Tudo pelo melhor, Se (sic) ligue em você, A vida de cada um, Advogado de Deus, Conversando contigo, Entre o amor e a guerra, Esmeralda, Espinhos do tempo, Nada é por acaso, Ninguém é de ninguém, O fio do destino, O matuto, O morro das ilusões, O mundo em que eu vivo, Para viver sem sofrer,Pare de sofrer, Quando a vida escolhe, Quando chega a hora, Quando é preciso voltar, Tudo tem seu preço, Tudo valeu a pena, Um amor de verdade. A grande questão que perdura, em se tratando de uma licitação para bibliotecas de escolas municipais de “ensino fundamental”, frise-se, é saber (1) que tipo de livros preexistem em tais bibliotecas; (2) quais os critérios para a aquisição de livros que, em sua totalidade, se se mostram inadequados para a promoção do saber das pessoas adultas, como compreender isso em relação ao ensino fundamental; nesse caso, é de salientar a constância da autora Bárbara Delinski com livros que enfatizam situações afetivas muito particulares, especialmente em relação à mulher, sugeridos por títulos como: Juntos na solidão, O lago da paixão, O lugar de uma mulher,Uma mulher misteriosa, Uma mulher traída; (3) por que razão são incluídos na compra livros como “Guinnes World Records 2006” que, como o próprio título sugere, é um texto que apenas registra fatos miraculosos, condicionados pelo tempo e que não acrescentam nenhum tipo de conhecimento; (4) também é questionável a aquisição de livro como “Chico Xavier – uma vida de amor”, de Ubiratan Machado, assim como “Quem ama educa” e “Homem cobra mulher polvo”, ambos de Içami Tiba; (5) surpreende, ainda, a aquisição de 150 (cento e cinqüenta) volumes do livro “Pedagogia do amor”, livro de bolso, de autoria de Gabriel Chalita. 4 Acredita-se que a compra de livros para o acervo de bibliotecas escolares é sempre um fator positivo, já que a leitura provoca uma atividade reflexiva e crítica com as naturais conseqüências na cultura. É estranhável, no entanto, a desatenção do poder público para com os desdobramentos que a compra de determinados livros põe em evidência: a absoluta falta de critérios, fazendo com que a própria literatura (são muito poucos os livros licitados que reforçam esse caráter) renuncie à suas prerrogativas de perenidade, sucumbindo à retórica da publicidade na valorização de livros que, rigorosamente, não contribuem para o desenvolvimento da vida intelectual e emocional. O que assusta, no caso da licitação referida, é o fato de que, no plano da inteligência e da capacidade de oferecer as condições racionais para o aproveitamento da leitura, avulta uma visão distorcida da humanidade que o LIVRO propõe, oscilante entre o irracionalismo e o misticismo, com a grosseira desqualificação dos valores e a conseqüente banalização do conhecimento. ____________________ Volnyr Santos é Doutor em Letras e professor de Língua Portuguesa e de Literaturas de Expressão Portuguesa.
Imprimir artigo